DANÇA CIRCULAR SAGRADA E POESIA: SENSIBILIZAÇÃO E AFETIVIDADE NA VIVÊNCIA UNIVERSITÁRIA*

Autores

  • Laylla Cerqueira Bitencourt Universidade Estadual de Feira de Santana

DOI:

https://doi.org/10.13102/jeuefs.v2i2.6107

Resumo

PALAVRAS-CHAVES: Práticas integrativas; Dança; Literatura; Poesia. INTRODUÇÃO: A proposta do plano de trabalho é de cunho interdisciplinar em um esforço de combinar a Dança Circular com Poesia para a construção de um espaço de afetividade e sensibilização dentro da Universidade. A Dança Circular configura-se como uma “prática de dança em roda, com música tradicional e contemporânea originária de diferentes povos e suas culturas, que favorece vivências integrativas e a interconexão entre os participantes.” (PANJOTA; BARROSO, 2017) De acordo com Ana Ramires (2013), a dança circular sagrada surgiu no contexto da Segunda Guerra Mundial, pelo coreógrafo Bernhard Wosien (1908-1986), em um movimento contrário a este cenário, com a proposta de valorização do estar junto, do sagrado e da cura. O Programa de extensão Rede de Apoio, Afetos e Ações Solidárias para UEFS tem como base a PNPICS e visa a utilização desses saberes e práticas na comunidade universitária – discentes, docentes, servidores e funcionários – por meio do projeto central e de seus subprojetos. Ressalta-se a necessidade de serem desenvolvidas estratégias para a promoção e prevenção de saúde nesse contexto que pode ser adoecedor. Bader Sawaia (1999; 2001) coloca que o estudo sobre o sofrimento éticopolítico refere-se ao reflexo das questões sociais que se põem em uma determinada época histórica e que afligem o grupo. O sentimento no qual Sawaia coloca para análise da exclusão é a afetividade, antes tida como o que nos afastava de uma suposta neutralidade e, portanto, era negada. Trazer à tona a afetividade é opor-se a esse pensamento ao mesmo tempo em que nos permite uma mobilização. Pensar isso no contexto proposto, a saber, a universidade, é fundamental, pois nos ajuda a entender o sofrimento de estar inserido nessa instituição. É importante também para propor uma práxis que leve em conta o fortalecimento social com base na afetividade e no desenvolvimento de potências. Assim, trabalhar com a proposta das PICS é ir além de um pensamento hegemônico sobre saúde e que inclui uma atenção humanizada e fomenta o sentimento de afetividade. Esses pontos podem ser reforçados quando combinados com literatura que de acordo com Antonio Candido (1988; 2011) tem um potencial humanizador. O sociólogo e crítico literário define literatura como “todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações.” (p. 176) É especificamente a poesia que se pretende inserir nas Danças Circulares Sagradas realizadas pelo Programa de Extensão como forma de ampliar os aspectos humanizador e afetivo. A proposta de sensibilização e humanização por meio da poesia dialoga com a prática do programa de extensão. Ser afetado é parte importante no processo de mobilização, sejam os passos orientados para educação ou saúde. Nesse sentido, tem-se como objetivo geral contribuir para a sensibilização das temáticas propostas pelo Programa de extensão Rede de Apoio, Afetos e Ações Solidárias para UEFS de modo a trazer o toque poético enquanto manifestação cultural. Ademais, os objetivos específicos voltam-se para a promoção e um espaço de afetação por meio da poesia além de diálogos e reflexões sobre a promoção de saúde e cuidado. MATERIAL E MÉTODOS: Os poemas foram os principais materiais para realização das atividades. Foram escolhidos de acordo com o atravessamento de temáticas de saúde e cuidado (englobando reflexões sobre tempo, presença, sentimentos, etc) de forma a fortalecer as atividades já em curso no projeto de extensão. Desenvolvemos a ação de leitura de um poema proposto pela mediadora. O grupo na roda foi convidado, caso quisessem, a compartilhar suas impressões sobre o poema e a experiência. A ação Literalmente Circulando foi dividida em dois momentos: iniciamos com uma abordagem dinâmica que convida os(as) participantes de forma coletiva ou individual, propondo uma reflexão sobre a experiência de estar na universidade, de acordo com vivências individuais ou coletivas. Para tanto, foram oferecidas palavras e letras soltas com a proposta de criarem combinações de palavras que pudessem ser poemas, versos ou frases relacionados com a temática. Em seguida, houve um momento de leitura e debate para articulação de uma discussão sobre o que foi produzido. Fez-se uma analogia com a transformação de palavras soltas que são unidas e ressignificadas quando postas juntas. Estas atividades ocorreram no período de Fevereiro à Março de 2020 de forma presencial e de Maio à Dezembro de forma virtual. Ademais, tiveram o intuito de iniciar a roda como uma forma de sensibilização e um momento de abertura. Pode ser também um meio de acessar as pessoas para construção de um vínculo inicial com o grupo antes da dança, entendendo que mesmo com os encontros regulares sempre chegam pessoas novas e essas dinâmicas são importantes no processo de acolhimento. RESULTADOS E DISCUSSÃO: Entramos em contato com a parte vivencial da Dança Circular, assim como sua história. Os encontros regulares possibilitaram múltiplas formações de rodas com a comunidade acadêmica, servindo como um espaço de acolhimento, de expressão corporal e de escuta. Foram realizadas algumas ações em eventos acadêmicos onde destaco o trabalho referente à circulação de afetos e promoção de autocuidado. Durante toda trajetória com o projeto, além do forte caráter afetivo e acolhedor – que, por vezes, falta em um ambiente voltado principalmente para o intelecto, para a produtividade – outro aspecto parece unir a divisão dos dois momentos – presencial e virtual. A tentativa de ser um suporte, uma ajuda para momentos de sofrimento psíquico através do acolhimento e da dança – o qual em nada tem a ver com afirmar uma função terapêutica – que no presencial se volta para o cotidiano na universidade, no virtual encontra uma crise que ultrapassa o âmbito da universidade e se coloca no espectro oposto à proposta do grupo: o isolamento, o distanciamento. Inicialmente essa questão se apresenta como um grande desafio, principalmente pela natureza do projeto. Contudo, ao final e durante o processo, as atividades geraram engajamento das participantes e relatos positivos sobre os encontros baseado na leitura de poemas e compartilhamento de reflexões sobre os mesmos e vivências corporais possíveis no espaço entre telas. Isto aponta para a necessidade de espaços como o que construímos, especialmente em contextos que nos colocam em situações atípicas podendo gerar também sofrimento psíquico. CONSIDERAÇÕES FINAIS: É necessário destacar a importância da atividade extensionista na universidade, principalmente referente a projetos que concebem a saúde de forma ampliada e acolhedora. É vital para o ambiente acadêmico haver espaços de expressão corporal e afetiva. Isto dialoga com o propósito do plano de trabalho ao explorar a literatura como via de afetação, simbolização e sensibilização.

Biografia do Autor

Laylla Cerqueira Bitencourt, Universidade Estadual de Feira de Santana

Departamento de Ciências Humanas e Filosofia

Psicologia

Referências

CANDIDO, A. O direito à literatura. In: ___. Vários Escritos. 5 ed. Rio de Janeiro: Ouro

sobre Azul/ São Paulo: Duas Cidades, 2011.

SAWAIA, B. O sofrimento ético-político como categoria de análise da dialética

exclusão/inclusão IN: SAWAIA, B. (Org.) As artimanhas da exclusão: análise

psicossocial e ética da desigualdade social. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2 ed., 2001,

p. 97-118.

PANJOTA, A.; BARROSO, M. Danças Circulares: uma proposta de educação, saúde e

integração. Apresentação no VI Congresso Naturales Medicinae, Porto-Portugal, 7 de

novembro de 2017. Disponível em:

(dancacircular.com.br)> Acesso em: 05 de Dez de 2020.

RAMIRES, A. L. M. Corpo, memória e identidade no Grupo Redenção de Danças

Circulares Sagradas. Revista Latino-Americana de História. Vol. 2, n 7. 2013.

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Publicado

2021-11-19